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    Marisa e Ana Paula Moura

    Marisa Correia, o rosto das 21 edições do festival que fez do batuku um encontro

    30 de dezembro de 2025

    No coração do Tarrafal de Santiago, junto à praça central, o domingo, 28 de dezembro, voltou a bater ao compasso do batuku. Ali realizou-se a 21ª edição do Festival de Batuku Nôs Tradison, reunindo 27 grupos de batucadeiras oriundos dos nove municípios da ilha de Santiago e um grupo convidado da ilha do Maio. São, afinal, estas duas ilhas onde o batuku mantém raízes mais profundas. Batuku uma manifestação secular onde música, dança e poesia se entrelaçam para expressar a identidade, a resistência e a ancestralidade do povo cabo-verdiano, sobretudo das mulheres.

     

    Mais do que um evento cultural, este festival é um exercício de resistência. A sua longevidade diz muito sobre aquilo que o batuku sempre representou: resiliência, força coletiva e paixão. Chegar à 21ª edição é, por si só, um ato de afirmação. Um caminho traçado pelo dinamismo da Delta Ramantxada, um dos grupos mais ativos e dinâmicos do país. À frente está Marisa Correia, a "Ma", como é carinhosamente tratada, ativista cultural e social, motor incansável deste genêro. No final do evento, confessava que cada edição continua a ser uma enorme satisfação. "É bonito ver o convívio entre pessoas de diferentes grupos de batuku", dizia, com um sorriso que parecia maior do que ela própria.

     

    Curiosamente, no ano passado, após a 20ª edição, Marisa tinha deixado no ar a ideia de fim do festival. O cansaço da logística para o evento pesava. Agora, um ano depois, ali estava ela, com energia renovada e alegria redobrada, ao ver tantos grupos, de várias gerações, ocuparem o palco. Nunca como agora, diziam-nos vários participantes, o batuku esteve tão vivo, tão bem fincado. E todos reconhecem em Marisa Correia uma referência maior na valorização de um género.

     

    Momentos antes do início das atuações, junto ao palco, assistimos a um abraço longo e sentido entre Marisa e Ana Paula Moura, do grupo Nôs Herança, da Cidade Velha, o mais antigo grupo de batuku ainda em atividade, fundado em 1990. Mais do que um cumprimento, foi o reencontro simbólico de duas mulheres que dinamizam o batuku em extremos opostos da ilha, separadas por mais de 70 quilómetros, mas unidas pela mesma causa.

     

    "Batuku sta na nha alma", repetiam-nos os elementos dos grupos. E o festival confirmava isso a cada instante. Não se tratava apenas de subir ao palco, mas de conviver, celebrar e partilhar alegria. Cada grupo, com 10 a 14 elementos, encontrava diante de si uma verdadeira muralha de apoio: mais de duas centenas de batucadeiras acompanhavam cada atuação, que incluía três músicas e "dá ku tornu". E, quase sempre, alguém de outro grupo, acabava por subir ao palco para "pila tchabeta", num contágio coletivo que arrancava sorrisos largos, inclusive de muitos turistas estrangeiros que escolheram o Tarrafal para passar férias. Telemóveis erguidos, corpos em suave ginga, enquanto o batuku tomava conta do espaço.

     

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    Promovido pela Associação Delta Cultura, o festival é hoje um dos grandes atrativos da agenda cultural do Tarrafal. A Delta Ramantxada mantém uma agenda intensa de atuações, durante a semana, no Tarrafal, e um pouco por toda a ilha de Santiago, incluindo a cidade da Praia. Para Marisa Correia, o Festival de Batuku Nôs Tradison é o culminar de um trabalho contínuo. Criado em 2006, chegou a ter anos com duas edições e é, sem dúvida, o maior projeto cultural da associação.

     

    Durante o evento, Marisa estava em todo o lado: organizava a logística da entrada dos grupos, distribuía água, fotografava, fazia transmissões em direto nas redes sociais, garantindo que as batucadeiras na diáspora também pudessem assistir. No alinhamento das 27 atuações, a Delta Ramantxada foi o oitavo grupo a subir ao palco. Começaram com a jovem Silvânia Fernandes, a Tchuná, na voz, e Marisa na tumba. Depois trocaram. Quando Marisa pegou no microfone, a ovação foi imediata. Olhou para trás por instantes, lançou um olhar rápido sobre a disposição dos elementos do seu grupo, como quem confirma que tudo está no lugar. Foi nesse momento que fizemos uma pausa na narração desta crónica. Perguntámo-lhe o que sentia ao chegar à 21ª edição do festival, como grande contributo para o batuku em geral, e também vendo crescer ali, desde a mais tenra idade, tantos elementos que hoje dão corpo ao grupo Delta Ramantxada. Marisa fez um brevíssimo silêncio, deixou escapar um sorriso largo e respondeu numa frase simples, mas carregada de sentido: "Quer dizer que fiz um bom trabalho para o batuku, para a cultura e para o país - Cabo Verde."

     

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    O festival é também o reflexo de um trabalho social profundo da Associação Delta Cultura, que atua nas áreas da educação, desporto e cultura como ferramentas de desenvolvimento pessoal. Muitas das atuais batucadeiras cresceram ali desde crianças. Muitas emigraram, mas novas gerações continuam a ser formadas. Curiosamente, várias integrantes do grupo também jogam futebol pela equipa feminina da associação, atual bicampeã regional e representante de Santiago Norte no último campeonato nacional.

     

    Durante as atuações, o carinho foi transversal, mas especial para o único grupo fora de Santiago: Raiz de Monte Penoso, da localidade de Alcatraz, na ilha do Maio. Com 13 elementos, trouxeram ao Tarrafal a sua energia própria. Marly Garcia, a "Lizita", vice-presidente do grupo, falava com gratidão pela oportunidade de participar. Destacou o forte amor ao batuku no Tarrafal e o convívio caloroso entre batucadeiras. O grupo, criado há 16 anos, tem músicas próprias e um videoclip disponível no YouTube, "Povo Caboverdiano".

     

    Entre palmas e batuques, cruzavam-se idades, saberes e histórias. Crianças acompanhadas por mães ou tias observavam atentamente, tal como muitos dos adultos começaram um dia. É assim que o batuku se transmite: de corpo para corpo, de geração em geração.

     

    Um dos grupos mais jovens, presentes no festival, foi Coragem, dos Picos, concelho de São Salvador do Mundo. Formado há apenas seis meses e composto por 17 adolescentes, já coleciona reconhecimento. A vocalista Liliane Gomes, de 20 anos, contou que o grupo conquistou o segundo lugar num concurso em Assomada, entre dezenas de participantes, em novembro. Desde então, os convites multiplicaram-se, culminando nesta presença no festival. Para Liliane, o Batuku Nôs Tradison é um marco: pela troca de experiências, pelo carinho e pelo convívio. "Classe tem de manter unida", resumiu.

     

    Entre as últimas atuações esteve o Raiz di Tarrafi, grupo com 22 anos de existência e presença assídua no festival. Quintino, é vocalista tal como a esposa, é um dos poucos homens a assumir a voz no batuku. Aos 52 anos, conta que encontrou o género em casa, ainda criança, nos casamentos e batizados incentivado pelo pai, nascido em 1909. O grupo já lançou um CD, em 2006, atuou nas ilhas do Maio e do Fogo e continua a valorizar aquilo que considera essencial: a amizade e o convívio que fazem destes encontros momentos únicos.

     

    A noite já avançava quando o festival terminou, deixando a certeza de que o batuku vai além da música. É memória, identidade e expressão comunitária. Enquanto houver mãos a bater, vozes a responder e pessoas a “rapica tchabeta”, o batuku continuará a ocupar um lugar importante na identidade do povo cabo-verdiano.

     

     

     

    Décio Barros