Crónica de Benvindo Neves
Cabo Verde estreou-se na CAN de futebol feminino ainda com o país ressacado da festa do Mundial, nos EUA. O "after party" em Marrocos não atraiu muita gente, mas as damas deram tudo.
Um mês e meio após a histórica estreia de Cabo Verde na Copa do Mundo, aconteceu um novo marco para o futebol nacional. A seleção feminina realizava seu primeiro jogo de sempre na Copa Africana das Nações.
Se a 15 de junho, em Atlanta, Estados Unidos da América, coube a uma campeã europeia e mundial a tarefa de batizar a entrada dos Tubarões Azuis no maior evento da FIFA, a 29 de julho ficou a cargo do Gana dar às crioulas as boas-vindas à festa mais rija da CAF, quando se fala de futebol feminino no continente.
Atlanta foi especial, porque a casa da primeira vez de Cabo Verde! Nunca mais será esquecida a cidade capital do estado da Geórgia, ainda por cima com uma primeira vez que correu tão bem! Sem dores, com tantas alegrias! Sem golos, uma falta cometida, 1 ponto para a caixa e o Mundo de boca aberta perante tamanho descaramento.
Em Casablanca, Marrocos, o momento foi igualmente especial. Não será esquecido, nunca, ainda que associada àquela noite esteja sempre um sabor agridoce. As ganesas, tão experientes, estiveram por cima, de início ao fim. A turma nacional não conseguiu sair da submissão a que foi sujeita e até acabou fazendo golo na própria baliza. Perdeu por 2-0 mas, no fim de tudo, ficou o sentimento de felicidade pela consumação do seu "ritual de inicação".
Na segunda ronda, a seleção comandada pela dupla Nita/Gust já se apresentou mais solta diante do Mali, um adversário que as cabo-verdianas tinham defrontado duas vezes numa semama, em outubro do ano passado, na derradeira etapa que viria a concretizar o apuramento para a CAN. Depois de perder 0-1 no Estádio Nacional, Cabo Verde foi a Bamako impor um 4-2 às malianas, selando em estilo a qualificação. Por Ironia, a seleção do Mali viria a ser repescada para o torneio e foi cair precisamente no grupo de Cabo Verde, para desforrar.
A Equipa Nacional perdeu, 2-3, num jogo esquisito, em que ficou a sensação de um desaire evitável, sobretudo pela forma como, depois de Evy Pereira ter feito o empate, 1-1, Cabo Verde se desorganizou defensivamente e sofreu 2 golos em lances bastante parecidos.
Já em desespero, o máximo que os tubarões femininos conseguiram foi reduzir o placar para a margem mínima, num desvio de cabeça da defesa central Alivia Kelly.
Boa surpresa na CAN. A moça que nasceu nos Estados Unidos da América, e cujas raízes são da ilha do Fogo, chegou e pegou. Cabo Verde ganhou uma "torre" no eixo da defesa e que, no ataque, pode fazer diferença sobretudo em lances de bola parada. No jogo da segunda jornada ficou ainda o registo do regresso aos golos do combinado cabo-verdiano, após cinco partidas sem marcar.
As derrotas nas duas primeiras rondas ditavam a sentença de Cabo Verde na edição de estreia na Copa Africana das Nações de futebol feminino. As comandadas de Silvéria Nédio iam despedir-se da competição frente às camaronesas, entretanto já apuradas.
A motivação passava por sair da CAN com pontos. Selecionadora e jogadoras deixaram claro esse objetivo na antevisão.
O jogo foi difícil, sobretudo na primeira parte. Cabo Verde ia para o descanso a perder por 1-0, mas os Camarões já haviam criado várias oportunidades.
A história do segundo tempo posso condensá-la num grande momento de inspiração de Ivânia Moreira. Vá é, de forma destacada, a melhor marcadora da seleção nacional. Tem 12 golos, quase o dobro da segunda melhor, Evy Pereira, que conta sete.
A menina de Txada Ponta, Santa Cruz, achou espaço pelo flanco esquerdo e saiu disparada que nem a égua “Arbissa Sabi” nas corridas de cavalo em São Filipe. Pelo meio, deixou no chão uma adversária e, já na grande área, arrancou um grande pontapé para um dos golos mais vistosos do torneio.
O golo valeu o primeiro ponto de sempre de Cabo Verde na CAN de futebol feminino. E bem que poderia ser o mais bonito, porque não? Já vimos este filme em estreia e gostámos! Queremos uma segunda sessão.

Ivânia “Vá” Moreira fez na CAN seu 12° golo ao serviço da Seleção Nacional (Foto: FCF)
Há 10 meses, quando Cabo Verde disputou a primeira mão da última eliminatória que decidia o apuramento para a CAN, o Estádio Nacional, na Praia, registou a maior assistência de sempre num jogo da seleção feminina. Na altura, apesar da derrota (0-1) com Mali, viu-se uma bela comunhão entre a equipa e os adeptos. Foi algo lindo de se ver, o que me levou a escrever aqui um artigo intitulado "A vitória do carinho".
Agora, terminada a atuação no maior palco africano de futebol feminino, olha-se para o desempenho da nossa seleção e não há como não se orgulhar dela. A derrota na estreia era um resultado esperado, nada de anormal perante uma das seleções mais fortes do continente. E para acentuar o grau de dificuldade no duelo com o Gana, Cabo Verde se viu desfalcado de duas das suas jogadoras mais experientes: Evy Pereira e a capitã Varsénia da Luz. Esta última, mais a guarda-redes Jacinta e as goleadoras Ivânia "Vá" Moreira e Irlanda "Irlass" Lopes, formam o quarteto "sobrevivente" de 2018, ano em que a seleção se constituiu para realizar o seu primeiro jogo de sempre, um particular com a Guiné Bissau.
Com o Mali, poder-se-ia esperar mais, enquanto que o empate frente aos Camarões pode ser considerado a despedida afirmativa da Copa Africana das Nações.
Na aventura pelas terras marroquinas, Cabo Verde marcou 3 golos, média de um por jogo. Sofreu 6, média de dois por partida. É um registo bastante aceitável numa debutante.
Pouco mais de um mês após a memorável estreia de Cabo Verde na Copa do Mundo, era natural que, ainda na ressaca da euforia, os cabo-verdianos elevassem as espectativas em relação à seleção feminina na inédita participação na CAN de Marrocos. Mas, as bel(íssim)as histórias não acontecem todos os meses. Nem sequer todos os anos.

