Jéssica Pina esteve em Cabo Verde em abril, e foi daqueles encontros escritos pela música. Para Jéssica Pina, subir ao palco do Kriol Jazz Festival 2026, na cidade da Praia, foi mais do que cumprir mais uma etapa de uma digressão internacional com os Brooklyn Funk Essentials. Foi também uma forma de se sentir em casa, reencontrar as suas raízes cabo-verdianas e partilhar essa energia com os companheiros de banda.
No palco, Jéssica não passa despercebida. Ora empunha o trompete, ora assume a voz, ora interage com os restantes músicos, num diálogo permanente que ajuda a dar vida à sonoridade contagiante do coletivo nova-iorquino. O seu protagonismo não se resume às notas que tira do instrumento ou à interpretação vocal. Está também na forma como comunica, sorri e se entrega ao público.
"Esta banda vê todos os elementos com a mesma importância", explica. Mas, na Praia, havia qualquer coisa de diferente. "Durante o Kriol Jazz, senti-me ainda mais à-vontade, praticamente em casa. Não era a primeira vez que estava em Cabo Verde. Quis transmitir a energia do povo cabo-verdiano aos restantes elementos da banda e vice-versa. Foi um momento muito especial."
A cumplicidade com os Brooklyn Funk Essentials começou em 2024, quando integrou uma digressão europeia do grupo. Em 2026, voltou a percorrer a estrada com a banda, numa tour que passou por Portugal, Cabo Verde, França, Mónaco e Reino Unido, entre grandes festivais ao ar livre e clubes de jazz mais intimistas. O concerto no Kriol Jazz Festival foi o quarto desta nova digressão.
Fundado em Nova Iorque, em 1993, pelo baixista Lati Kronlund e pelo produtor Arthur Baker, o coletivo construiu uma identidade musical própria, cruzando funk, jazz, soul, hip-hop, dub e house. Uma mistura que fez dos Brooklyn Funk Essentials uma referência internacional do movimento acid jazz. Mais de três décadas depois, a formação continua a renovar-se, reunindo músicos e vozes de diferentes origens, sem perder a energia que a distingue.
Na atual formação, Jéssica Pina integra a seção de sopros, ao lado da trombonista Ebba Åsman e do saxofonista francês Loïc Gayot. Partilha ainda o universo vocal da banda com Alison Limerick e Desmond Foster, numa combinação que dá ao grupo a liberdade de viajar entre diferentes géneros e ambientes musicais.
Três países, uma história familiar
É quando fala das suas origens que o sorriso de Jéssica ganha outro significado. A ligação a Cabo Verde vem do lado paterno e tem a ilha do Fogo como ponto de partida. "O meu avô, pai do meu pai, é cabo-verdiano da ilha do Fogo, de apelido Pina. Foi para Angola e casou com a minha avó, que é angolana. O meu pai acabou por emigrar para Portugal e a minha mãe é portuguesa. Então, é isso: Cabo Verde, Angola e Portugal, tudo misturado", conta, entre risos.
A mistura está na história da família e, de alguma forma, também no seu percurso artístico, feito de encontros entre culturas, ritmos e sonoridades. Quanto ao crioulo cabo-verdiano, a resposta sai com a mesma naturalidade: "Ta entendê, mas mi cá ta papia" [entende, mas não fala].
Há, contudo, uma viagem que continua por fazer. Apesar das várias passagens por Cabo Verde, Jéssica ainda não conhece a ilha do Fogo, terra dos seus antepassados. "Ainda não conheci a ilha do Fogo, onde estão as minhas raízes, o que é grave", brinca.
A primeira visita ao arquipélago aconteceu em 2017, quando integrou a banda de Grace Évora. Mais tarde, regressou para atuar com Miroca Paris, em duas ocasiões, até voltar à Praia com os Brooklyn Funk Essentials.
O Kriol Jazz não lhe era, por isso, inteiramente desconhecido. Em 2017, já tinha pisado o palco do festival, então ao lado de Grace Évora. Nove anos depois, regressou com outra bagagem, mais experiência e um papel musical mais ativo. "Enquanto artista, evoluí muito desse tempo para cá. Agora tenho também um papel muito mais ativo na voz", observa. As duas experiências, porém, ocupam lugares diferentes na sua trajetória. "Com o Grace, adoro as músicas dele e adorei participar no concerto. Com os Brooklyn é outro mundo, com o qual também me identifico bastante. Sinto-me encaixada na perfeição."
Uma carreira feita de grandes palcos
A carreira de Jéssica Pina tem-na levado a palcos de diferentes dimensões e geografias. Um dos capítulos mais marcantes foi a participação na banda de Madonna, durante a digressão Madame X, que passou pelos Estados Unidos, Portugal, Inglaterra e França. A tour realizou 75 concertos e decorreu entre 2019 e março de 2020, tendo sido interrompida pelas restrições associadas à pandemia de Covid-19.
A trompetista integrou igualmente a banda que acompanhou Matias Damásio e, ao longo do percurso, partilhou experiências com nomes da música africana e lusófona, como Bonga, Tito Paris, Don Kikas e Karina Gomes.
Ainda em Lisboa, enquanto frequentava a universidade, começou a profissionalizar-se na música através de atuações. Passou também pelo programa semanal da RTP África Conversas ao Sul, como membro da The Oddara Band, formação que acompanhava musicalmente artistas de diferentes geografias da lusofonia. Foi uma experiência que lhe permitiu mergulhar em ritmos diversos e conhecer de perto a riqueza musical africana. Um percurso que considera gratificante e que ajudou a consolidar a sua versatilidade.
Apesar dos palcos internacionais e dos nomes sonantes com quem trabalhou, Jéssica não esconde a gratidão pelo caminho percorrido. "Isto mostra o quão grata e agradecida sou pelo percurso que tenho na música. Não tem sido sempre fácil, mas faço aquilo de que gosto e nunca fiz outra coisa para além da música. Por isso, estou muito agradecida. A música é a minha paixão."
Do ensino clássico ao jazz e à improvisação
Nascida em 1992, em Alcácer do Sal, no Alentejo Litoral, em Portugal, Jéssica Pina começou a estudar música aos oito anos, na Sociedade Filarmónica Progresso Matense, na Mata de Palhacana, em Alenquer. Foi aí que iniciou o contacto com o trompete, instrumento que viria a tornar-se uma das marcas da sua identidade artística.
Mais tarde, frequentou o Conservatório de Música de Loures, onde aprofundou os conhecimentos técnicos e teóricos, antes de concluir a licenciatura em Música, na variante de Jazz - Trompete, na Universidade de Évora. Prosseguiu a formação académica com o mestrado em Interpretação de Jazz, na Escola Superior de Música de Lisboa.
A formação clássica e filarmónica deu-lhe as bases. O jazz abriu-lhe outros caminhos, através da improvisação, da liberdade interpretativa e do diálogo entre músicos.
Em 2018, lançou o álbum de estreia, "Essência", seguindo-se o EP "Vento Novo", em 2021. Mais recentemente, em 2025, levou o single "Calafrio" ao Festival da Canção, chegando à grande final do concurso português.
Entre a música autoral, os projetos de outros artistas e as digressões internacionais, Jéssica tem construído uma carreira que não cabe num único género ou numa só geografia.
Na Praia, com os Brooklyn Funk Essentials, juntou tudo isso: o domínio do trompete, a voz, a experiência acumulada e uma história familiar que atravessa Cabo Verde, Angola e Portugal. Talvez por isso tenha sentido o palco do Kriol Jazz de forma tão particular.
A ilha do Fogo continua à espera da sua visita. Até lá, as raízes cabo-verdianas fazem-se ouvir de outra maneira: no ritmo, na entrega e na energia de uma artista que, mesmo sem falar crioulo, encontra na música uma linguagem capaz de encurtar distâncias e fazê-la sentir-se em casa.






