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    De back vocal a protagonista: a noite em que Fattú tomou o Kriol Jazz

    12 de abril de 2026

    Em 2018, na altura da 10ª edição, o Kriol Jazz Festival, como habitual juntou grandes nomes da panorama musical "criola" e criou a Kriol Band. No alinhamento, nomes sonantes como Boy Gé Mendes (Cabo Verde), Jacob Desvarieux (Kassav - Guadalupe), Mário Canonge (Martinica/Guadalupe), Hernâni Almeida (Cabo Verde) e Jowee Omicil (Haiti/Canadá). Entre eles, quase discreta, uma jovem back vocal carregada de sonhos: Fattú Djakité.


    Oito anos depois, já não há lugar para a discrição. Fattú regressa ao mesmo palco, agora em nome próprio, mais madura, mais segura e com uma voz que encontrou o seu caminho. Ao seu lado, uma banda de jovens músicos talentosos - Dieg e Khaly Angel nos teclados, Magik Santiago na bateria, Elias no baixo e N’Du na percussão. A sustentar um concerto que foi crescendo em intensidade e cumplicidade.


    Na abertura do terceiro e último dia do festival, Fattú mostrou-se no auge. Entre canções, danças e sorrisos, construiu uma ligação imediata com o público, que a acompanhou e a ovacionou do início ao fim. E, como quem recusa limites de palco, desceu até à plateia para cantar e dançar no meio das pessoas, espalhando uma energia contagiante que se sentia em cada canto da Pracinha da Escola Grande, no Plateau, coração da Praia.


    Mas houve um momento que ficou suspenso no ar. Ao apresentar a nova música "Guiné Bissau", chamou ao palco os filhos Kalani, de 8 anos, e Malakai, de 6. Um na bateria, outro na percussão. Momento que a artista descreveu como um gesto simbólico, sublinhando a importância de envolver as crianças neste tipo de experiências culturais. A família reunida, entre olhares cúmplices e aplausos, num daqueles instantes raros em que a música se mistura com a vida. Fattú, mãe e artista, partilhava o palco com Dieg, companheiro, pais dos seus filhos e músico, enquanto os filhos, acarinhados pela banda e pelo público, viviam ali o seu próprio início.

     

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    No final, já fora de palco, a artista não escondia o orgulho: a família reunida, o caminho percorrido e a vontade de continuar a evoluir, na performance e na mensagem. "Foi maravilhoso", disse, com um sorriso largo que lhe é característico, acrescentando que atuar no que considera ser "o melhor festival de Cabo Verde" representa mais um impulso e mais "power" no seu percurso musical.


    A verdade é que o caminho vem sendo construído com consistência. Em 2025, destacou-se no Atlantic Music Expo, foi convidada dos Cabo Verde Music Awards, lançou o single "Badja Tina" e terminou o ano com reconhecimento internacional ao vencer o prémio de Best Inspirational Woman of the Year nos Zikomo Awards, em Dar es Salaam, na Tanzânia. Ela estava nomeada em três categorias: Inspirational Woman of the Year, Best Female Artist of the Year e Best Songwriter.


    O percurso começou bem antes, teve projeção nacional em 2012, ao conquistar o terceiro lugar no concurso de música "Estrela Pop" na televisão pública. Pelos palcos das quase todos os festivais de música do país, muitas vezes como back vocal, aprendendo nos bastidores e somando quilómetros de estrada. O primeiro single, "Bendedera di Sol", surgiu em 2015, mas foi depois da pandemia que deu o salto com o álbum a solo "Praia-Bissau", lançado em finais de 2022. Desde então, Fattú tem vindo a afirmar-se com uma carreira sólida, entre Cabo Verde e o mundo.


    Nascida na Guiné-Bissau, em 1990, e criada em Cabo Verde (desde dos seus 5 anos), carrega nas suas raízes a base de uma identidade artística que, tal como se viu nesta noite, continua em construção, agora com mais palco, mais história e, sobretudo, em constante evolução.