Crônica Décio Barros
Na ilha de Santiago há uma palavra de que, particularmente, gosto muito: nbem undi...sobretudo no contexto das festas populares. Em crioulo, nbem undi, a tradução literal para o português seria “vim-me encontrar”. Mas o seu significado vai muito além das palavras. Nbem undi carrega em si a amizade, a convivência, a união, a irmandade entre as nossas gentes. É a morabeza em toda a sua grandeza.
Diz-se: nbem undi nha tia, nbem undi nha madrinha, nbem undi nha colega di trabadju, nbem undi nha amiga, nha amigo.
Também se ouve nbem pundi. É a mesma coisa. O mesmo sentir.
Foi com esse espírito que encontrei Dona Zita, na Cidade Velha, aparentava ter 45 anos, de mangas arregaçadas, enquanto enrolava a massa de milho e a lançava, uma a uma, numa panela grande, já fumegante. Por estas bandas hoje é dia de festa. Festa grande. Celebrava-se o Santíssimo Nome de Jesus, no último domingo do primeiro mês do ano.
Dona Zita veio da localidade de Saltos, no longínquo município de Santa Cruz, no centro-este da ilha de Santiago. Perguntei-lhe se era natural da Cidade Velha. Respondeu-me que não, com um sorriso aberto: Nbem undi nha amiga. Dje bai undem três vez, mi ainda ncá tinha bindo. [Vim passar a festa com a minha amiga. Ela já foi três vezes à minha casa, agora era a minha vez.]
Esta palavra - nbem undi - ganha especial força nas festas do santo padroeiro. As pessoas chegam de véspera. À noite, há festa popular; de madrugada, começa a azáfama nas cozinhas improvisadas à porta de casa. Em grandes panelas prepara-se a comida que é de todos: feijão-pedra, xerém, guisado de carne, batata, mandioca e massa de milho, também conhecida por totoco.
Dona Zita não fugia à regra. Tinha chegado no sábado e ido ao festival de música Nhu Santo Nomi. A pulseira ainda no pulso denunciava a noite longa. "Vibrei muito com atuações de todos os grupos, mas muito mais com Tony Fika, somos da mesma zona, e Kino Cabral.
Estava cansada, mas feliz. Animada. O sorriso largo não escondia a satisfação de ver a comida quase pronta. O relógio já tinha passado das 12h00 e, enquanto isso, decorria ainda a missa solene do Santíssimo Nome de Jesus, que atrai fiéis de toda a ilha de Santiago e muitos emigrantes naturais da Cidade Velha.
Depois da missa, o ritual é quase obrigatório: passar de casa em casa, cumprimentar conhecidos e aceitar, pelo menos, um prato da comida tradicional.
Em dia de santo, cozinha-se na rua, em panelas grandes, para servir todos os que passam. Chegámos à Cidade Velha quando as confeções da comida estavam já quase no fim e, em cada rua, ruela e beco, as cozinheiras repetiam os mesmos gestos: enrolavam a massa de milho e lançavam-na na panela. Um gesto carregado de nostalgia para muitos que vivem fora de Cabo Verde e que aproveitaram a ocasião para o inevitável “lembra tempo”.
Diz-se, na ilha de Santiago, que a Cidade Velha tem fama de não ser generosa com visitantes. Os moradores, sobretudo as mulheres, rejeitam essa ideia e dizem não compreender como tal fama se espalhou. Eu, que apenas passava na minha caminhada de domingo, pude confirmar: não passa de boato.
Num percurso de pouco mais de cinquenta metros, entre as casas próximas das ruínas da Sé Catedral, fui convidado, insistentemente, por várias pessoas a almoçar. Entre fitas, sorrisos e gentilezas, acabei por comer três pratos, em três casas diferentes. A ementa era a mesma em todas: feijão, xerém e guisado de carne com massa.
Tudo igual. E tudo diferente. Porque ali, mais do que a comida, servia-se a morabeza.

