
Na véspera de São João, Porto Novo acorda cedo demais para um dia que parece nunca terminar. Nesta terça-feira, 23 de junho, a cidade vive uma dos momentos mais intensos do seu calendário festivo: de manhã, a grande peregrinação de Son Jon; à noite, mais uma enchente de música e animação no terceiro dia do Baile Popular, este ano com nomes como Grace Évora, Djodje, Supa Squad e outros artistas a subirem ao palco.
Tudo começa às sete horas da manhã, com a missa na Capela de São João Baptista, na localidade de Ribeira das Patas. É dali que parte a emblemática peregrinação de Son Jon, um percurso de cerca de 23 quilómetros até ao centro da cidade de Porto Novo.
A cada ano, milhares de pessoas juntam-se à caminhada. Vêm de todos os cantos de Santo Antão, chegam de São Vicente em grande número, também das outras ilhas e muitos regressam da diáspora apenas para viver estes dias. Uns caminham por fé, outros para cumprir promessas, alguns para agradecer graças alcançadas e muitos simplesmente porque não conseguem imaginar um São João sem esta romaria.
Pelo caminho, o som dos tambores nunca se cala. Os tamboreiros organizam-se em pequenos grupos, espalhados ao longo da multidão, mantendo vivo o ritmo que embala a caminhada. O Kolá Son Jon, como é pronunciado em Santo Antão, acompanha cada passo. Há dança, há canto, há encontros e reencontros. Sobretudo, há a morabeza das gentes da ilha das montanhas, capaz de transformar uma longa caminhada numa celebração coletiva alegre e leve.
Enquanto a peregrinação avança, o sol também faz o seu percurso. As horas passam e o calor torna-se cada vez mais intenso. O caminho atravessa montes, vales e extensões descampadas. Nessa altura, parece haver apenas uma forma de enfrentar o calor: deixar o corpo balançar ao ritmo dos tambores.
É também nesse momento que se percebe quem passou a noite inteira no Baile Popular e seguiu diretamente para a peregrinação. Os mais jovens exibem coragem e resistência, mas o corpo acaba sempre por cobrar a fatura. A energia da madrugada começa a desaparecer, os passos tornam-se mais pesados e o cansaço passa a ser visível nos rostos.
Entre Ribeira das Patas e Porto Novo existem sete paragens tradicionais. Em cada uma delas, o andor com figura de São João Baptista é colocado num local previamente preparado para momentos de oração, bênçãos e pagamento de promessas. São pausas aguardadas por todos.
Além da dimensão religiosa, as comunidades ao longo do percurso fazem questão de acolher os peregrinos com comida, bebida e palavras de incentivo. Ninguém fica sem um copo de água ou um prato para recuperar energias.
E, como acontece todos os anos, surgem, do nada, também as famosas bancas de "canequinha" ou de "batota", jogos que normalmente não têm espaço na legalidade, mas que parecem encontrar um lugar reservado durante as festividades de Son Jon.
Depois, a marcha retoma o seu rumo. O caminho parece interminável, mas ao mesmo tempo a distância perde importância. Há sempre um tambor a tocar, uma dança a surgir espontaneamente ou um conhecido para cumprimentar.
Para quem, como eu, que acompanha tudo de perto, registando imagens e histórias, a peregrinação ganha diferentes perspetivas: ora na frente da multidão, ora no meio da marcha, ora junto dos últimos caminhantes. No final, em vez dos 23 Kms, o meu medidor indica o dobro da distância.
Pouco antes da chegada à cidade acontece a mais célebre das paragens: a Capela de Água Doce. É um ponto quase simbólico de renovação de forças. Ali, os peregrinos bebem água fresca, descansam por instantes e preparam-se para a entrada triunfal em Porto Novo. Os tambores ganham intensidade, os repiques aceleram e a expectativa cresce.
A chegada à cidade é sempre um dos momentos mais emocionantes. Os que ficaram aguardam os peregrinos de braços abertos. O percurso termina junto à Ermida de São João, no Ribeirão de Igrejinha, onde o religioso e o profano se encontram num mesmo compasso.
Entre as orações dos padres e dos fiéis, ouve-se o rufar vigoroso de centenas de tambores.
Homens, mulheres, jovens, idosos e crianças participam numa manifestação onde desaparecem as diferenças sociais e permanece apenas o sentimento coletivo de pertença. Todos seguem embalados pelo ritmo contagiante do Kolá Son Jon.
Por volta das 15h30, a peregrinação chega ao fim. Para muitos, é tempo de regressar a casa e recuperar energias para mais uma longa noite de festa. Outros continuam a tocar tambor, como se o dia ainda estivesse apenas a começar.
Nesta época do ano, Porto Novo veste-se de uma atmosfera difícil de descrever. A cidade ganha uma energia própria, cores, única, que só pode ser verdadeiramente compreendida por quem a vive. Nenhum texto, por mais detalhado que seja, nem qualquer vídeo, por mais fiel que pareça, consegue transmitir por completo o que se sente durante o Son Jon. Porque o São João de Porto Novo não se explica apenas. Vive-se. Esta frase é cliché, mas é mesmo assim.



Cronica DB



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