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    Estádio Nacional Tubarões Azuis [foto: Décio Barros]

    O estádio que já era dos Tubarões Azuis

    15 de março de 2026

    Durante doze anos, o maior estádio de Cabo Verde viveu com uma espécie de identidade incompleta. Era simplesmente o Estádio Nacional, um nome funcional, quase administrativo, como quem diz apenas o que é, mas não o que representa.


    Agora tem nome próprio: "Estádio Nacional Tubarões Azuis".


    A designação foi oficializada pela Resolução n.º 45/2026, de 13 de março, e assinalada com o descerramento de uma placa na tarde de sábado, 14 de março. A cerimónia aconteceu num momento particular da vida política do país, em que se multiplicam inaugurações e lançamentos de primeiras pedras, com as eleições legislativas de 17 de maio de 2026 já no horizonte.


    Na verdade, porém, o nome já existia há muito tempo, pelo menos na boca dos adeptos. Desde que a Seleção Nacional de Futebol passou a jogar naquele relvado de Monte Vaca, nos arredores da cidade da Praia, muitos começaram a referir-se ao estádio como "Shark Arena", numa tradução espontânea do imaginário que envolve a equipa nacional. Era uma forma informal de dizer que ali jogavam os Tubarões Azuis.

     

    Um nome que quase foi outro
    Nem sempre esteve garantido que o estádio viesse a carregar esse símbolo nacional.


    Em 2023, poucos dias após a morte da lenda do futebol Pelé, a 29 de dezembro de 2022, o Governo cabo-verdiano anunciou a intenção de atribuir ao Estádio Nacional o nome do antigo jogador brasileiro. A proposta seguia um apelo do presidente da FIFA, Gianni Infantino, que sugerira a todos os países do mundo que homenageassem o "rei do futebol" batizando um dos seus estádios com o seu nome.


    A ideia, no entanto, não encontrou consenso. Entre muitos cabo-verdianos instalou-se a sensação de que o principal estádio do país deveria refletir uma identidade mais próxima da história e do imaginário nacional. O assunto acabou por esfriar e a intenção ficou pelo caminho.


    Quando nasceram os Tubarões Azuis
    A expressão “Tubarões Azuis” para designar a Seleção Nacional de Futebol começou a circular na primeira década do século XXI. Foi, contudo, em 2013, com a estreia de Cabo Verde na Copa de África das Nações (CAN), que o nome ganhou outra dimensão.


    A seleção chegou aos quartos de final nessa edição da CAN, sendo eliminada pelo Gana. Ainda assim, o impacto ultrapassou largamente o resultado desportivo. O país inteiro viveu aquela campanha como uma afirmação coletiva.


    Nas ruas, nos bares, nas casas e na diáspora, a equipa nacional tornou-se um ponto de encontro emocional para os cabo-verdianos. No regresso ao país, a seleção foi recebida com um verdadeiro banho de multidão, num ambiente de festa que muitos compararam à euforia das celebrações da Independência.


    A partir daí, os Tubarões Azuis deixaram de ser apenas um apelido. Tornaram-se uma marca.


    O basquetebol passou a falar em "Tubarões Martelo", o voleibol em "Tubarões Voadores", e outras modalidades começaram também a procurar identidade dentro desse mesmo imaginário.


    Em novembro de 2016, no final da V reunião ordinária do Conselho Nacional do Desporto, o então ministro do Desporto, Fernando Elísio Freire, anunciou que "Tubarões Azuis" passaria a ser a designação comum a todas as seleções nacionais.


    No final de 2025, o Banco de Cabo Verde anunciou o lançamento, para março de 2026, de uma moeda comemorativa dedicada à seleção nacional de futebol, assinalando a histórica qualificação para o Mundial de 2026. Na mesma altura, o presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol, Mário Semedo, revelou que a marca "Tubarões Azuis", enquanto produto comercial, está oficialmente registada pela federação.


    Um palco de memórias
    Localizado em Monte Vaca, o Estádio Nacional é hoje a maior infraestrutura desportiva de Cabo Verde e, neste momento, o único recinto do país certificado pela FIFA para jogos internacionais.

    Inaugurado a 23 de agosto de 2014, começou a escrever a sua história poucos dias depois, quando a seleção nacional venceu a Zâmbia por 2 a 1, a 10 de setembro, num jogo de qualificação para o CAN 2015. O primeiro golo oficial da seleção naquele relvado foi marcado pelo avançado Zé Luís, na altura jogador do Sporting de Braga, de Portugal. Hoje, já no final da carreira, representa a Académica do Fogo.


    Desde então, o estádio acumulou alegrias e frustrações: vitórias históricas, empates arrancados a custo e derrotas difíceis de digerir. Mas há momentos que ficaram gravados na memória coletiva.


    Um deles aconteceu a 13 de outubro de 2025, quando Cabo Verde venceu Eswatini por 3 a 0, resultado que confirmou o apuramento inédito para o Campeonato do Mundo de Futebol.


    Esse triunfo foi, de certa forma, a crónica de uma vitória anunciada, que o país vestiu de gala para a festa e trouxe para a capital grande número de repórteres e digital influencer estrangeiros.  O auge da euforia tinha acontecido um mês antes, a 9 de setembro, quando a seleção nacional venceu os Camarões por 1 a 0 e consolidou a liderança do Grupo D da zona africana de qualificação para o Mundial de 2026, ficando com quatro pontos de vantagem sobre o segundo classificado quando ainda faltavam duas jornadas.


    Logo após esse jogo ocorreu a segunda invasão pacífica e saborosa do relvado do Estádio Nacional.


    Antes desse momento de celebração que encheu o país de orgulho, o estádio já tinha sido palco de outra página marcante do futebol regional de Santiago Sul.

     

    Num jogo excecional do campeonato regional de futebol de Santiago Sul, disputado no Estádio Nacional em vez do habitual Estádio da Várzea. Um "pequeno" clube do bairro de Achadinha, o Celtic FC da Praia, fez história ao sagrar-se campeão regional. O título, inédito para o clube, foi confirmado após um empate a zero com o Desportivo. O Celtic terminou a competição com 55 pontos, mais um do que a Académica e o Sporting (54). Corria a época desportiva 2018/2019. O apito final, levou à euforia os adeptos desta equipa com mais 50 anos de existência, que não hesitaram em invadir os relvados a fazer uma merecida e bonita festa.

     

    Curiosamente, há um nome que liga esses dois momentos: Humberto Bettencourt. Na altura, era o treinador que conduziu o Celtic ao título. Hoje integra o staff técnico da Seleção Nacional, como treinador adjunto de Bubista.

     

    Outra curiosidade em relação ao Estádio Nacional prende-se com o facto de estar situado na maior região desportiva do país. Ainda assim, a maioria das mais de vinte equipas federadas de Santiago Sul continua a preferir jogar no velhinho e já degradado Estádio da Várzea. O Estádio Nacional é utilizado apenas em casos de força maior.


    Um nome que já era de todos
    Doze anos depois da inauguração, o estádio ganhou finalmente um nome que não veio apenas de um decreto ou de uma resolução administrativa.


    Veio da linguagem dos adeptos, da história recente do futebol cabo-verdiano e da forma como um país inteiro aprendeu a reconhecer-se dentro de uma equipa. No fundo, o Estádio Nacional Tubarões Azuis não ganhou apenas um nome. Ganhou um símbolo.

     

    Estádio Nacional momentos e curiosidades
    • Inauguração: 23 de agosto de 2014

    • Capacidade: 15 mil espectadores
    • Jogo inaugural: futebol feminino entre os mistos de Barlavento e Sotavento. Incluiu corrida de atletismo, eventos culturais e bênção do Cardeal D. Arlindo Furtado
    • Primeiro jogo da Seleção Nacional: 10 de setembro de 2014, Cabo Verde venceu Zâmbia 2 a 1, para qualificação CAN 2015. Golos de Zé Luís (o primeiro golo oficial da Seleção no estádio) e Ryan Mendes
    • Último golo marcado no Estádio Nacional: Stopira, na vitória por 3 a 0 frente a Eswatini, a 13 de outubro de 2025
    • Maior goleada: Cabo Verde 7 a 1 São Tomé e Príncipe, em 13 de junho de 2015. Marcadores: Djaniny (2), Nuno Rocha, Garry Rodrigues, Odair Fortes, Babanco e Júlio Tavares. Jogo da 1ª jornada das eliminatórias para o CAN 2017

    Balanço geral da Seleção Nacional no Estádio Nacional
    • 27 jogos disputados
    • 15 vitórias, 6 empates, 6 derrotas (frente a: Marrocos, Líbia, Burquina Faso, Uganda, Senegal e Botswana)

     

    DB