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    O último tamboreiro de Tomba Toro

    25 de agosto de 2026

    Nelito, de nome próprio, Euclides de Oliveira Varela. Tem 52 anos e, há quatro décadas, carrega o tambor preso ao corpo e a Tabanka dentro da alma. Diz ser, hoje, o único tamboreiro da Tabanka de Tomba Toro, a localidade vizinha de Ribeirão Manuel, no interior do município de Santa Catarina de Santiago.


    Encontrámo-lo no centro da cidade da Assomada, onde vários grupos de Tabanka do município se juntaram para um breve encontro. No meio das cores, dos tambores, dos apitos e das vozes, Nelito destacava-se pelo sorriso e pela intimidade quase natural com o instrumento que trazia consigo.


    A Tabanka, para ele, não é passatempo. É compromisso.


    Trabalha na construção civil e garante que ganha bem. Ainda assim, não hesita em deixar de trabalhar e, consequentemente, de ganhar cinco ou dez mil escudos por dia, quando chega o momento de sair para brincar Tabanka. "Isto é a minha tradição. Não troco por nada."


    E não é apenas nos desfiles que sente essa ligação. Fala também dos momentos de convívio, das acções sociais, dos almoços partilhados, das panelas preparadas para todos, elementos da Tabanka e convidados. É ali, diz-se, que a tradição também ganha sentido: na comunidade, na partilha e no encontro.


    Nelito aprendeu a tocar tambor com o avô. Naquele tempo, recorda, havia dois grupos de tabanka em Tomba Toro: um formado por adultos e outro por crianças, a tabankinha. Aos 12 anos, já saía com os mais velhos, tentando acompanhar o ritmo dos tambores e aprendendo, pouco a pouco, os segredos daquele toque.


    Havia, porém, um homem que marcou particularmente a sua aprendizagem. Um grande tamboreiro, tocava com o meu avô, como faz questão de recordar. "Aprendi muito com ele. Mas ele tinha problema de peito e chamava-me: ‘Rapazinho, vem ajudar-me. Já levas muito jeito com o tambor.’"


    Foi assim, entre os mais velhos, que Nelito foi crescendo dentro da tabanka. Quarenta anos depois, continua a tocar.


    Na família, a paixão também se reparte. Quando há actividade de tabanka, explica, é fechar a casa e sair. "É trancar a porta e sair com a família toda: mulher e filhas." O filho mais velho também é tamboreiro, mas teve de emigrar. Ainda assim, o tambor parece continuar a fazer parte da herança da família.


    Em Tomba Toro, a festa da Tabanka acontece por altura das festas juninas, no dia 29 de Junho, dia de São Pedro. Mas a tabanka de Tomba Toro não fica apenas pela sua localidade. Habitualmente, seguem para brincar em Achada Leite, Charco, Chã de Tanque, Palha Carga e Pedra Badejo.


    Depois de 40 anos a tocar, havia uma pergunta inevitável: a Tabanka é sabi? Nelito não respondeu de imediato. Abriu um largo sorriso. Fixou os olhos no tambor preso na cintura. Inclinou suavemente o corpo para trás, encheu o peito e, como se procurasse dentro de si uma palavra suficientemente grande para explicar o que sentia, respondeu: "Credo… uma alegria enorme, que até saem lágrimas de tão satisfeito." E depois repetiu, uma, duas, três, quatro, cinco vezes: "Sabi… sabi… sabi… sabi… sabi…"

     

    Não parecia uma resposta ensaiada. Nem era preciso explicar mais nada. Aquela palavra vinha claramente do fundo da alma.

     

     

    Crónica Décio Barros