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    Os Tubarões Azuis voltaram. O 5 de Julho em que o futebol uniu um país inteiro

    5 de julho de 2026

    Os Tubarões Azuis regressaram este domingo, 5 de julho, ao país depois de uma campanha no Mundial que encheu de orgulho os cabo-verdianos. E não poderia haver coincidência mais simbólica: o regresso aconteceu precisamente no dia em que Cabo Verde celebrou os seus 51 anos de Independência.

     

    Houve, por isso, um sabor especial nas comemorações deste 5 de Julho. Durante algumas horas, a Seleção Nacional de Futebol tornou-se o centro das atenções de um país inteiro, num daqueles momentos marcantes da história do país independente. O contraste com o cinquentenário da Independência não podia ser mais evidente. Enquanto as disputas ideológicas entre os dois maiores partidos ensombraram parte das celebrações, desta vez 51ª aniversário foi o futebol que uniu o país. Não houve cores partidárias, apenas as cores da bandeira nacional. E, enquanto o povo enchia as ruas para celebrar um dos maiores feitos desportivos da história de Cabo Verde, a classe política cumpria o ritual de sempre: discursos e mais discursos na Assembleia Nacional. Naquela que os próprios políticos apelidam de "Casa do Povo", poucas vezes os discursos tocam o povo e raramente se ouve, verdadeiramente, a voz do povo.

     

    Voltando aos Tubarões Azuis. O voo proveniente de Miami, onde na sexta-feira, 3 de julho, Cabo Verde disputou o último jogo do Mundial, aterrou na Praia às 9h55. À espera estavam milhares de pessoas, vestidas de azul e empunhando bandeiras nacionais. Afinal, poucas coisas conseguem gerar tanta coesão nacional como uma seleção de futebol.

     

    O avião aproximava-se da pista para aterragem e, num gesto quase automático, multiplicaram-se os telemóveis erguidos. Ninguém quis perder um segundo daquele instante, todos procuravam eternizar o momento em publicações nas redes sociais. Duas vozes, quase em uníssono, quebraram o burburinho: "até arrepia".

     

    E era mesmo isso. Um daqueles instantes raros em que o tempo parece ganhar outro peso, carregado de emoção, de orgulho, de pertença. Este momento histórico da Seleção Nacional pintou de azul as galerias de fotos de milhares de pessoas por onde passaram os Tubarões Azuis. Ninguém ficou de fora.

     

    Ao som de batucadas, samba e kolá, o Aeroporto Internacional da Praia transformou-se numa autêntica festa popular. Misturavam-se todas as gerações. Havia quem tivesse acompanhado toda a caminhada dos Tubarões Azuis desde os primeiros jogos internacionais e havia crianças que, talvez sem compreenderem ainda a dimensão histórica do momento, gritavam incessantemente por Vozinha, Bubista, Sidny Cabral ou Kevin Pina. Os seus gritos rapidamente contagiaram toda a multidão.

     

    E havia razões para tanto entusiasmo. A prestação de Cabo Verde no Mundial conquistou o respeito do planeta futebol. Três empates na fase de grupos, diante da Espanha (0-0), do Uruguai (2-2) e da Arábia Saudita (0-0), garantiram o segundo lugar do grupo e uma inédita qualificação para os 16 avos de final na primeira participação de sempre num Mundial de Futebol. Pela frente surgiu a campeã mundial em título, a Argentina de Lionel Messi. Os Tubarões Azuis perderam por 3-2, após prolongamento, mas obrigaram uma das maiores potências do futebol mundial a sofrer até ao último minuto. A Argentina tremeu. E o mundo rendeu-se ao futebol praticado por Cabo Verde.

     

    À saída do aeroporto, jogadores e equipa técnica subiram para um camião adaptado em jeito de trio elétrico. A caravana percorreu as principais avenidas e bairros da cidade da Praia até Kebra Kanela, sempre rodeada por uma multidão que parecia não ter fim. O playlist que tocava no camião era a mesma que acompanha a equipa no balneário: "Cotxi Pó", "Tubarão Azul", dos Ferro Gaita, "Ninguém, Ninguém", dos La MC Malcriados, entre outros temas que já fazem parte da identidade desta geração de futebolistas.

    A felicidade estampada no rosto dos jogadores chegava sempre alguns segundos antes da caravana. O povo respondia com aplausos, abraços, acenos e palavras de gratidão. A ligação entre esta Seleção e os cabo-verdianos, construída ao longo dos últimos anos, voltou a revelar-se algo raro no desporto.

     

    Talvez um dos momentos mais simbólicos tenha sido ver Roberto Lopes, conhecido por "Pico". Nascido e criado na Irlanda, longe das grandes comunidades cabo-verdianas de Lisboa, Roterdão ou Boston, cumprimentava as pessoas como quem regressa ao bairro onde cresceu. E recebia, em troca, um carinho genuíno, daqueles que só nascem quando um povo reconhece alguém como um dos seus.

     

    No mercado de Sucupira, uma vendedeira de mangas resumiu o sentimento de muitos: "Onde está o Vozinha." O guarda-redes, além de herói entre os postes, tem um nome impossível de esquecer, simples de pronunciar, fácil de memorizar, em qualquer língua.

     

    Quando a caravana chegou a Kebra Kanela, a multidão que a acompanhava encontrou outra multidão que já aguardava junto ao palco montado para o encerramento das comemorações. Ali, povo e Seleção voltaram a encontrar-se. Os mesmos adeptos que sofreram, sonharam e vibraram ao longo do Mundial puderam, finalmente, agradecer de perto a Seleção Nacional que fez muito mais do que disputar uma competição: durante algumas semanas, fez um país inteiro acreditar que, no futebol e na vida, até os sonhos mais improváveis podem ganhar forma.

     

    DB