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    [com VÍDEO] Onde o asfalto termina: o Fogo vivido em trilha e solidariedade no Mano a Mano Off-Road

    28 de abril de 2026

    O Mano a Mano Off-Road, organização sediada na cidade da Praia, voltou a lançar-se às trilhas desafiantes, desta vez na ilha do Fogo, território onde repousa o único vulcão ativo do arquipélago, para a sua 14ª edição, numa mistura bem afinada de aventura e solidariedade.

     

    Neste sábado, logo de manhãzinha, 25 de abril, o ponto de partida fez-se na baixa da cidade de São Filipe, entre a serenidade da praia de Fonte Bila e a imponência da igreja matriz. Logo ali se sentia que o dia não seria apenas sobre motores e poeira. Eu, novato neste meio, fui à procura de uma boleia para viver de perto uma experiência que durante todas as edições anteriores acompanhei apenas pelas redes sociais da organização. A boleia apareceu, com o piloto Baptista e o seu co-piloto, e quase sem dar por isso, fui integrado na equipa como “assistente de segundo escalão do co-piloto”. Confesso: fiquei orgulhoso. Seguimos então a bordo de um Land Rover, prontos para a aventura.

     

    O percurso reservava duas paragens com propósito: em Piquinho e Lagariça, onde foram entregues jardins infantis requalificados. E se há imagens que ficam, são as dos sorrisos das crianças, ainda alheias à dimensão do gesto, mas espontâneas nas canções que brotavam com uma leveza desarmante.

     

    De Lagariça, a caravana desceu em direção à costa, passou junto ao aeroporto, mergulhando depois em trilhas que alternavam entre "caminhos de cabra" e antigas vias esburacadas, hoje marcadas pelo tempo. É esse lado bruto que seduz. Para quem, como eu, se perde de amores por caminhadas, ver viaturas 4x4 a rasgar trilhas agrestes, fugindo ao asfalto, tem um encanto difícil de explicar.

     

    A ilha, desenhada como um grande cone, impõe respeito. A subida fez-se em espiral, cruzando zonas como Nossa Senhora do Socorro, a fértil Genebra, Fonte Aleixo, até alcançar a Chã das Caldeiras pela via de Achada Furna. Aqui, inevitavelmente, pela estrada asfaltada que serpenteia até à entrada do Parque Natural do Fogo, única opção para vencer a inclinação mais exigente.

     

    Lá em cima, o tempo parece abrandar. A travessia da Chã das Caldeiras é uma imersão em estado puro, natureza crua, quase intocada, apenas moldada por ela mesma a cada erupção vulcânica. O último foi em novembro de 2014. Contorna-se o imponente o vulcão do Fogo, cujo o pico é o ponto mais alto de Cabo Verde, e por momentos tudo parece suspenso. Apesar do veículo estar em alta velocidade, a grandiosidade do vulcão converte tudo em slow motion.

     

    Apesar de já termos estado inúmeras vezes em Chã das Caldeiras, nunca tínhamos ultrapassado as últimas habitações, ao pé do vulcão. Sempre entramos do lado Este, onde tem o simbólico e uma das mais fotografada placa informativa do país - "Bem-Vindo ao Parque Natural do Fogo". 

     

    E foi para outro lado que seguimos desta vez. O desconhecido, afinal, ainda mora em lugares que julgamos conhecer. E é aí que a experiência deixa de ser apenas paisagem, passa a ser sentir.

     

    A travessia continuou em direção ao Perímetro Florestal de Monte Velha, já na transição entre os municípios de Santa Catarina do Fogo e Mosteiros. Entramos então na maior mancha florestal da ilha, onde o microclima envolve tudo com uma frescura inesperada. Verdes intensos, campos de lava, nuvens por baixo dos nossos pés, e a sensação curiosa de estarmos suspensos no céu.

     

    É neste cenário que surge a histórica “Casa do Presidente”, mandada construir por Aristides Pereira. Um refúgio discreto, rodeado por eucaliptos, ciprestes, pinheiros e plantas endémicas, onde o silêncio parece ter morada fixa. Foi ali que a caravana parou para o almoço, um momento de partilha, descontração e renovação de energias, num ambiente que convida naturalmente à pausa.

     

    Já passava das 16 horas quando se iniciou a longa descida rumo às Salinas. Em linha reta, seriam poucos minutos. Mas o Fogo não se mede assim. A geografia impõe curvas, desníveis e canyons que obrigam a um percurso sinuoso, com passagem por Campanas de Cima e de Baixo. Duas horas e meia depois, chegávamos finalmente ao nível do mar.

     

    Nas Salinas, um dos ex-líbris da ilha, o cenário muda, e com ele, o desafio. Dunas de areia, trilhos improvisados e técnica apurada. No ar, o cheiro intenso dos travões aquecidos após a longa descida; ao fundo, o som sincronizado do ar a sair dos pneus, o “tsccccc” necessário para adaptar as viaturas ao terreno. Entre pilotos e co-pilotos, o entusiasmo era visível. Há paixões que não se explicam, "clichémente", vivem-se.

     

    Com o sol a incendiar o horizonte antes de desaparecer por detrás da ilha da Brava, começou a prova de perícia. Viaturas a vencer obstáculos, a deslizar na areia, silhuetas desenhadas em contraluz, fumo das derrapagens a misturar-se com as últimas cores do dia. Um espetáculo quase cinematográfico.

     

    O Mano a Mano Off-Road é mais do que um evento, é uma experiência. Para quem, como eu, encontra nas trilhas pouco exploradas um certo sentido de liberdade, percorrer caminhos semelhantes, mas dentro de um 4x4, revelou-se surpreendentemente intenso. Diferente, sim. Mas igualmente memorável.

     

     

     

    Décio Barros