Chegou a Cabo Verde há apenas dez dias, mas fala da experiência como quem reencontra uma parte antiga de si. Entre oficinas, batalhas de dança e conversas de bastidores no Kontornu - Festival Internacional de Dança e Artes Performativas, a bailarina e coreógrafa Lúcia Oliveira foi descobrindo o país dos pais ao ritmo da dança, da música e da comunidade de dança que a acolheu como família.
Crioula nascida em Portugal, no Barreiro, na Grande Lisboa, Lúcia pisou pela primeira vez solo cabo-verdiano para integrar a 4ª edição do festival. Veio como convidada para orientar masterclasses e integrar o júri do Dance Battle, mas acabou por viver uma experiência que ultrapassou o palco.
"Está a ser muito especial", resume, enquanto fala da alegria de finalmente conhecer Cabo Verde, e feliz por ser através da dança.
Filha de pai do Tarrafal de Santiago e mãe de São Filipe, na cidade da Praia, cresceu numa família de seis irmãos, três rapazes e três raparigas, sendo a "codê", a mais nova da casa. Os pais emigraram para Portugal na segunda metade dos anos 80 e ainda não regressaram ao arquipélago. Foi agora, aos 30 anos, que Lúcia decidiu fazer essa viagem pela primeira vez.
E tudo aconteceu quase por acaso.
Conta que, num dia comum, apareceu-lhe no feeds do Instagram o flyer do Festival Kontornu. Na altura, já tinha definido um objetivo pessoal para este ano: viajar mais através de projetos ligados à dança. Quando viu que o festival acontecia em Cabo Verde, sentiu imediatamente vontade de participar.
Inscreveu-se para apresentar espetáculos, mas a programação já estava fechada. Ainda assim, o interesse foi mútuo e acabou integrada no evento através das masterclasses e integrar o corpo de jurado do Dance Battle, chegando ao país em parceria com o pessoal do IUFA - Festival Internacional de Arte Urbana dos Açores.
A dança entrou-lhe cedo na vida. Tinha 15 anos, frequentava ainda o ensino básico e acompanhava a irmã em festas de rua onde a dança urbana fazia parte do ambiente natural dos encontros juvenis. Experimentou aulas e nunca mais parou.
No Barreiro, integrou um grupo de dança até ao dia em que o professor emigrou. Sem grandes planos, assumiu o lugar dele, começou a dar aulas e foi aí que percebeu que a dança podia ser mais do que uma paixão adolescente.
"Ganhei experiência, comecei a gostar cada vez mais e investi seriamente nisso", conta.
Esse percurso levou-a ao Reboot, espaço onde desenvolveu praticamente toda a sua formação dentro da cultura hip hop, acumulando vitórias em campeonatos nacionais em Portugal. Mais tarde mudou-se para Paris, onde vive há quatro anos.
Na capital francesa licenciou-se em dança, passou a dar aulas de danças urbanas para crianças e começou aos poucos a afirmar-se no circuito internacional. Atualmente integra a companhia feminina ParadoxSal, dedicada ao house dance, com a qual tem percorrido vários países europeus. O mais recente projeto foi uma tour de um mês pela Suécia, com vários espetáculos, passando por nove cidades.
Além dos palcos, também trabalhou como bailarina em videoclipes, televisão e publicidade, colaborando com artistas como Cláudia Pascoal, Dino Santiago, Anna Joyce e Jimmy P.
Como coreógrafa, participou em projetos ligados à Coupe de France 2023, colaborando com marcas como Nike e Snipes, além de integrar a criação da peça internacional "Dans(e) House Trio", desenvolvida com a companhia Chantiers Publics, do coreógrafo Hamdi Dridi.
Mas, por estes dias, é Cabo Verde que lhe ocupa o pensamento.
Fala da comunidade de dança encontrada na Praia como "uma família cheia de alegria" e diz sentir-se emocionalmente ligada ao ambiente que encontrou no festival.
É a primeira vez no arquipélago. Mas garante que não será a última. Promete voltar ainda este ano. E muitas outras vezes.
DB




